terça-feira, 27 de outubro de 2015

Beleza, FUNCIONALIDADE, barulho, CORES, PROJETOS e até um certo CAOS: Medellín, Antioquia, Colômbia


O tempo amanheceu frio naquela quarta-feira, nas montanhas de Medellín. Já estávamos no país há dois dias e era hora de começarmos a conhecer mais intimamente a cidade, na medida em que um visitante consegue conhecer. 

A região de Antioquia se mostra facilmente. Ela tem orgulho de ser o que é e por este motivo se expõe, se descortina e até se exibe para qualquer um que esteja interessado em observar. 

O dia amanheceu frio nas montanhas

Arepa de choclo: minha preferida

Café da manhã
Tinto
Antes de iniciarmos nossa jornada por Medellín, tomamos café da manhã, com as tradicionais arepas, que os colombianos herdaram dos índios, antigos habitantes do país. A minha preferida é a de chócolo, mais grossa, mais macia, mais amarelinha. Até hoje quando eu me lembro fico com a boca cheia de água. Uma das minhas saudades deste país.

O recheio pode ser qualquer um. Eu geralmente comia com manteiga e queijo. O queijo na região de Antioquia é absurdamente macio e gostoso. Às vezes colocava um ovo mexido. Como fogão e panelas não são o meu forte, não sei exatamente como as arepas são feitas. Sei apenas que leva farinha de milho: branca ou amarela. 

Minha maneira favorita de comer as arepas era como tortilla, como uma mini pizza, com o recheio sobre ela, segurando com a mão,  mas encontramos também estilo sanduíche. As possibilidades são inúmeras. 

Como uma tradição criada por nós, para potencializar todos os momentos, sempre que nossas amigas chagavam para nos pegar, tomávamos um tinto (café colombiano coado servido em xícara grande), enquanto planejávamos as próximas horas e conversávamos sem parar. 

Estação de metrô Poblado

A estação limpa e nova apesar de já ter cerca de 20 anos

A estação de metrô

Mapa do metrô
Fomos até a estação Poblado para pegar o metrô. A ideia era subir o famoso metrocable, o teleférico que inspirou o Rio de Janeiro. O sistema é integrado (alimentadores, metrô e metrocable), mas tem um tempo para o uso do bilhete único. Há opções de bilhete para um ou mais dias, mas como não sabíamos o que seria de nosso dia e dos próximos, compramos o bilhete individual.

A fila estava enorme, mas andou rapidamente e eu fiquei muito surpresa com o metrô de Medellín. Ele é impressionantemente limpo e parece que acabou de ser inaugurado quando na verdade já está em funcionamento há cerca de 20 anos. 

Ele é todo de superfície, o que nos proporciona uma viagem sobre os telhados da cidade. Quase esperei ver Mary Poppings e os limpadores de chaminé cantando para mim. 

Na estação de metrocable

No metrocable

Uma das paradas do metrocable

A vista das comunidades e do metrocable

Uma das paradas

No metrocable
Nós descemos na estação Acevedo, onde tomaríamos o metrocable. Da estação tivemos a visão do morro que iríamos subir. Nas cabines do teleférico cabem até seis pessoas e nós quatro ocupamos um deles. É muito alto e nós não fomos até o ponto final onde estava o Parque Arvi, porque o dia havia esquentado e fazia muito calor. 

Em minha opinião foi uma experiência impressionante. A viagem em si é muito parecida com os teleféricos que nos conduzem nos cerros para praticarmos snowboard, mas a paisagem é completamente diferente: casas e mais casas morro acima, cortados por ruas de asfalto perfeito e sem buracos, crianças jogando pelada em campos estruturados, pessoas vivendo suas vidas e nós sobrevoando estas vidas. 

O metrocable faz parte do que eles chamam de cultura metro onde o governo investiu em mobilidade urbana, entendendo que isto era necessário para melhorar a qualidade de vida dos seus cidadãos. No entanto, a cultura metro envolve muitos outros elementos necessários para que o projeto da mobilidade urbana seja sustentável.

Assim, a cultura metro compreende capacitação e geração de trabalho e renda para as pessoas que trabalham direta ou indiretamente nos meios de transporte público (metrocable, metrô, alimentadores - micro-ônibus que levam até as estações de metrô -  e ônibus), a educação de crianças e adultos no entendimento de que o patrimônio público é um bem de todos e para todos, colocando o cidadão como protagonista social no cuidado de sua cidade, além do controle da violência.

Enquanto subíamos, G e P nos contaram que a cultura metro mudou a cara da cidade. Que havia comunidades que nem a polícia entrava por conta da violência, até que Álvaro Uribe, então governador do departamento de Antioquia, afirmou que tudo aquilo era Colômbia e que ele não poderia permitir territórios dominados pelo tráfico e entrou com força e determinação, pacificando estes territórios: construiu quadras de esportes, escolas, implantou o metrocable que melhorou a acessibilidade dos moradores, manteve policiamento ostensivo e tudo foi melhorando. 

Quando saímos de Antioquia, Medellín estava prestes a inaugurar o transmilênio. Confesso que ver projetos gerando resultados positivos foi inspirador e pensei em meu país, em suas potencialidades e voltei para casa com mais esperança.

Cenas cotidianas

Na estação Santo Domingo

O metrocable que ainda sobe

Ônibus que fazem a travessia dentro dos morros

caos

A estação Santo Domingo

As cabines que cabem até 6 pessoas
Descemos na estação Santo Domingo. Confesso que apesar de tudo o que nossas amigas nos contaram a respeito do controle da violência, que a minimizou, me senti insegura quando desci na estação e me vi no meio da favela. 

Havia dois policiais que nos informaram que a Biblioteca Espanha estava fechada. Eles nos disseram que era tranquilo e seguro circular por ali. Confiamos. Não nos afastamos muito (estava realmente muito calor) mas ficamos um bom tempo observando a dinâmica daquele lugar, o caos, o barulho, a intensidade de pessoas, carros e ônibus subindo ruas estreitas disputando espaço com moradores, pois não havia calçada. Barraquinhas de frutas e o metrocable sobre nossas cabeças.

Eu fiquei fascinada com aquilo e poderia me encostar em algum lugar e gastar horas só observando. Mas havia muito por fazer no asfalto e o tempo era curto. Compramos novo bilhete individual e descemos para a estação Acevedo.

Desta vez em nosso carrinho, além de nós quatro havia mais dois ocupantes. Como G é muito falante e adora socializar logo começou a puxar conversa: um de nossos companheiros contou que havia muitos novos projetos em andamento, com foco na qualidade de vida das pessoas como por exemplo tirar os moradores que construíram suas casas em áreas de alto risco, aquelas que estão no topo das montanhas e transformar estas áreas em parques, dando nova e segura moradia para o público remanejado. 

O outro projeto que ele mencionou e que considerou como o mais ambicioso deles é o que irá tratar as águas negras que são os esgotos das residências que são jogados nos rios, poluindo-os e assim recuperá-los, como o Cauca, que corta a cidade. A previsão de conclusão é de 10 anos e o nosso relator falava cheio de otimismo e orgulho. 

Embora a Colômbia esteja conseguindo resolver seus problemas, o caminho ainda é longo: há muitos dilemas típicos de nossa querida América do Sul a serem solucionados e dificuldades a serem superadas. 

Da estação Acevedo nós seguimos a pé para o centro da cidade.

Os sons de Medellín: