terça-feira, 30 de maio de 2017

A SUÍÇA:

A Suíça

A Suíça não me comoveu, não agitou minha alma ou sacudiu meu espírito. Entretanto, senti um intenso amor por este país que me recebeu com extrema generosidade. Posso inclusive afirmar que nossa relação amorosa foi desenvolvida no primeiro olhar: assim que saí da Gare de Cornavin (Estação de trem de Genebra) sabia que havia sido conquistada.

Esse amor pela Suíça, ao contrário de ser ardoroso, foi sereno, plácido, tranquilo. Começou na elegante Genebra e foi se fortalecendo ao longo dos dias seguintes à medida que eu acumulava quilômetros viajando pelo país e conhecia novas cidades.

A Suíça não é um país ardente, mas ele ganhou facilmente meu coração por conta de sua elegância natural, longe de qualquer arrogância ou austeridade, sendo ao contrário um país descomplicado, simples e facílimo de estar.

A Confederação Helvética: 

A Suíça
Bela Suíça
A Suíça, ou melhor dizendo, a Confederação Helvética, é constituída por 26 cantões mais ou menos independentes, cada um com seu brasão, sendo a cidade de Berna sua capital. Sua formação teria começado ainda no século XIII.

A Reforma Protestante dividiu a Confederação Helvética causando várias guerras religiosas, mas ela sobreviveu. Hoje, encontramos pelo país templos católicos e protestantes, sendo que cidades como Berna e Zurique são predominantemente protestantes. 
Há quatro línguas oficiais na Suíça: o alemão, falado por dois terços da população, o francês por um quinto, o italiano é o idioma de 10% e o romanche de 1%. Este é um dos aspectos interessantes da Suíça: mudar de cantão é um pouco como mudar de país, dentro do próprio país, pois idioma, costumes e arquitetura, para falar apenas de alguns elementos, são distintos entre eles.  
O curioso é que a segunda língua falada na maior parte das cidades é o inglês e não outro dos idiomas oficiais do país. Segundo nos disseram inúmeras vezes, não é comum que os cidadãos falem mais de um desses quatro idiomas. 
Em Genebra (parte francesa) eu precisei me comunicar com Lucerna (parte alemã) e a primeira coisa que a recepcionista perguntou ao entrar em contato com a cidade foi se eles falavam inglês e foi nesse idioma que se comunicaram. 

A tão alardeada frieza:
A Suíça
A tão alardeada frieza suíça
Na Suíça eu não encontrei a tão alardeada frieza de seu povo. Diversamente, o que vimos foram muitos sorrisos, acolhimento, gentileza, simpatia e uma vontade enorme de ajudar. Eu me senti confortável e muito bem vinda de uma maneira absoluta. Não raro, pessoas passavam por mim na rua e sorriam.

Para ilustrar melhor o que digo, posso comentar sobre o policial que me ajudou a encontrar o quilômetro 40 da maratona de Genebra mesmo com as mãos geladas pelo frio, mesmo estando trabalhando organizando o trânsito, mesmo se desculpando por não falar nada de inglês.

Posso falar sobre a recepcionista em Nyon, em um dos museus que visitei, que se colocou inteiramente à disposição para traduzir as informações que estavam disponíveis exclusivamente em francês. Eu abusei e ela não perdeu a simpatia, demonstrando estar feliz por me contar a história de sua cidade.

Fizemos uma visita guiada ao Parlamento em Berna, em francês, idioma que não falamos. Sabendo disso, inúmeras vezes a guia nos passou informações em inglês e tirou nossas dúvidas sempre com muita animação.

Ao fim da visita ela ainda ficou um tempão conversando conosco sobre assuntos diversos e, diante de nossa infindável curiosidade, nos deu livretos para entendermos melhor sobre o funcionamento político da Suíça. 

Não poderia deixar de mencionar em Zurique a senhora que nos vendo parados no ponto nos informou sobre o colapso dos trams e perguntando para onde estávamos indo, nos deu opções de como chegar em nosso destino. 

Isso sem falar da senhora em Thun que abriu todas as panelas de comida do restaurante para nos mostrar o menu do dia, uma vez que não falava quase nenhuma palavra em inglês. Depois disso, ainda nos serviu com muitos sorrisos e alegria. 

Talvez a única exceção, que com certeza confirma a regra de que os suíços são ótimos anfitriões, seja Lausanne onde as pessoas são mais apressadas, menos sorridentes e carregam no rosto certo ar de cansaço. Mas, ainda assim, encontramos simpatia por aqui.

Ao entramos equivocadamente em determinado lugar achando que era posto de informação turística, o senhor que estava trabalhando levantou-se e gastou muitos momentos de seu tempo conversando conosco: falou de vários assuntos e nos explicou a melhor maneira de chegarmos a Montreux

Ele não tinha pressa e se não houvesse uma cidade inteira a ser explorada, talvez tivéssemos gastado muitos minutos mais conversando com aquela pessoa tão gentil e agradável. 

O que dizer então da moça que nos viu observando a vegetação em Fribourg e parou seu passeio com os amigos para nos contar que o atual prefeito está mandando destruir tudo?! Vejam vocês, essa árvore era anterior ao nascimento de minha mãe. Ela brincava aqui, nos disse ela! E agora, não existe mais árvore, falou desolada, em um francês misturado com inglês e muita mímica. 

Todas essas pessoas que mencionei são apenas algumas das que encontramos aqui e acolá neste belo país. Todas nos sorriram e nos fizeram sentir em casa.  


A beleza da Suíça:

A Suíça
A beleza na Suíça

A Suíça
A Suíça sem cara de Suíça
Uma das certezas que eu tinha ao voar para a Suíça era de que certamente encontraria um país de beleza extraordinária e indiscutível. Não foi bem assim! 
Sim, encontramos cenários de filme, de perder o fôlego, mas a Suíça tem muitas e deliciosas faces, e carrega em suas entranhas imperfeição também e isso é magnífico, pois assim, aos meus olhos pelo menos, ela tornou-se muito mais interessante.  
A natureza na Suíça é prodigiosa e exuberante, mas também aqui possui variadas fisionomias. Ela parece mudar de tom e de energia em cada cidade. Parece mudar de aspecto, de configuração. A cada cidade que visitamos era como uma nova leitura. Não há monotonia na Suíça. 
O mesmo posso afirmar sobre a arquitetura nas cidades. Aos olhos desatentos os prédios e casas podem parecer monocromáticas e sem graça, mas nada mais longe disso: há nuances, às vezes sutis, mas o casario suíço é magnífico. 
Possui ranhuras, padrões e detalhes atraentes. Suas janelas parecem olhos curiosos, gulosos e bisbilhoteiros. Eles mudam de forma sim, mas é preciso ficar atento para não correr o risco de pensar que tudo é mais do mesmo. Não é! 

O caminho de Santiago:
A Suíça
O Caminho de Santiago pela Suíça - a famosa concha indica a rota aos peregrinos
Descobrimos que existe uma rota Suíça do caminho de Santiago. Em várias cidades vimos a imagem da famosa concha, símbolo do santo, indicando o caminho aos peregrinos. Igrejas montaram pequenos locais de descanso para os andarilhos, que vimos aqui e acolá com suas pesadas mochilas.

Soube que esse caminho já tem 600 anos e conduz através de florestas e córregos, ruínas de castelos antigos, trilhas históricas, capelas e santuários. Deve ser mesmo uma parte bonita a ser percorrida e as marcas deixadas devem ser intensas. 


Curiosidade:


A Suíça
Na Suíça
Sempre atravessei a rua na faixa de segurança em meus dias de visita à Suíça e sempre esperava os carros e bicicletas pararem completamente para atravessar, afinal de contas eu vivo em uma cidade onde a faixa de segurança não é respeitada pelos motoristas.

Comecei a perceber que carros e bicicletas, de longe, ao me avistarem, começavam a fazer sinal indicando que eu podia atravessar. Logo entendi que estava segura, não precisava esperar que eles parassem, pois não seria atropelada, já que a lei na Suíça é cumprida e o respeito a todos é observado.

Inclusive notei que minha atitude de espera comprometia o trânsito e atrapalhava a todos (alguns motoristas fizeram uma cara meio feinha para mim), pois quando atravesso sem esperar a parada total dos veículos, eles podem apenas reduzir e assim não causam congestionamento ou perda de tempo. 

A Suíça tem nova roupagem:
A Suíça
O lixo nas ruas
Esse é definitivamente um país acolhedor. Há muitos imigrantes vivendo por lá e não raro, em um espaço reduzido como o dos transportes públicos, ouvimos muitos e variados idiomas sendo falados ao mesmo tempo, alguns deles completamente desconhecidos para mim.

Entretanto, conversando com um e com outro, ouvimos relatos de que a Suíça tem nova roupagem e que ela não é exatamente bonita. Alguns dos povos que estão migrando para lá, segundo nos disseram, não observam e respeitam determinadas leis e tem comportamentos distintos daqueles praticados no país como, por exemplo, o hábito de não jogar lixo na rua.

Ouvimos por lá que a Suíça nunca esteve tão suja. Questionei sobre a posição do governo em relação a isso e a outros delitos e hábitos dos estrangeiros e a resposta foi que as autoridades tem receio de serem taxadas de racistas e por isso não tomam medidas mais duras. 

A temperatura:

A Suíça
Temporal e fortes ventos atrapalharam a caminhada

A Suíça
Flores coloridas enfeitam as cidades
Estivemos na Suíça no último mês da primavera. A amplitude térmica foi grande: costumava amanhecer por volta dos 5 ou 6 graus e durante o dia subia para 17 ou 18 graus. Pegamos alguns dias de chuva, especialmente no período da tarde, mas nada que comprometesse a caminhada. 
Somente em nosso penúltimo dia no país foi que o tempo virou completamente e a cidade ficou debaixo de temporal, com fortes ventos e frio e assim comprometeu completamente nossa caminhada de exploração, nos obrigando a buscar refúgio em um museu, o que também foi ótimo, claro!
Em compensação vimos muitas e coloridas flores de tipos conhecidos como as tulipas e de espécies que nunca havia visto, deixando as cidades ainda mais bonitas. Isso sem contar o verde da vegetação que envolve a maioria dos lugares suíços por onde passamos, que estava intenso com distintas e maravilhosas tonalidades. 

O alto custo:
Suíça
Café da manhã básico comprado no mercado
O alto custo na Suíça não é brincadeira! Eu sabia que o valor das coisas por lá era maior que o encontrado em outros países, mas não estava preparada para a realidade. Caro naquele país é verdadeiramente caro. Nem o mercado mostrou-se uma opção razoável.

Posso afirmar que os valores que encontramos em todas as cidades, em relação a museus, alimentação e transporte público (alguns hotéis em algumas cidades dão passes gratuitos para turistas) são pelo menos o dobro do valor de outras cidades europeias que já visitei. Isso inclui também material de higiene e perfumaria.

A Suíça sob meu olhar: 

A Suíça
Não tenho pressa, não tenho destino. Deixe-me estar nesse país que merece ser vivido, apreciado, degustado...
As cidades por onde passamos – Genebra, Nyon, Berna, Thun, Zurique, Friburgo, Gruyère, Lausanne – não tem monumentos grandiosos ou museus extraordinários. A Suíça sob meu olhar é um país para ser visto, vivido, saboreado, degustado.

Vimos e vivemos muitas coisas bacanas nos quinze dias que gastamos apenas na Suíça. Mais uma vez não atravessamos fronteiras internacionais e mais uma vez ficamos satisfeitos e felizes com nossa decisão, pois apesar de ser um país pequeno a Suíça tem muito a nos mostrar.

Neste país sem mistérios a serem descobertos, sendo ao invés disso exposto, eu criei deliciosos e adoráveis momentos costurados lenta e caprichosamente que hoje se transformaram em doces e saudosas memórias. 

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